Literatura infantojuvenil,

Mamãe está cansada; e você com isso?

Vanessa Barbara apresenta o ponto de vista infantil para o ‘burnout’ que esgota tantas mulheres na maternidade

30set2023 | Edição #74

A mãe está on até demais. A premissa de Mamãe está cansada, segundo livro infantil de Vanessa Barbara, é familiar a muitas mulheres. A pandemia havia começado, estava todo mundo trancafiado em casa, e a autora precisava trabalhar. Arrumar a casa. Dormir um pouco, se possível. E cuidar de uma filha de um ano e meio com mais pilha para gastar do que um coelhinho Duracell em open bar de energético. Daí a ideia de um enredo que desse conta das múltiplas jornadas às quais se submetem tantas mães solteiras ou casadas, numa sociedade em que acumular labuta doméstica e profissional é uma sina sobretudo feminina.

Este é um título para crianças, então as análises sociológicas são matizadas numa historinha sobre a menina que volta da escola e quer brincar um monte. Mas a mamãe, puxa, parece um zumbi enquanto navega por uma rotina de celulares, laptops e aspiradores de pó. E a garotinha sabe que, mesmo sem a atenção da adulta do pedaço, há uma porção de coisas a se fazer sozinha.


Mamãe está cansada, segundo livro infantil de Vanessa Barbara, é familiar a muitas mulheres

O livro ganha ares de material didático ao propor um manual de atividades para os pequenos se entreterem enquanto a mãe está ocupada. Eles podem brincar com a própria sombra, fabular chapéus doidos colocando calcinhas e cuecas na cabeça, correr pelados pela sala imitando uma arara. Ainda que a recreação possa também adicionar caos ao ramerrame materno. Como quando a filha vê na bronca para ir tomar banho a oportunidade de iniciar uma corrida de obstáculos com brinquedos no chão.

Exaustas

A hipervalorização da mãe como principal fonte de cuidado dos filhos é uma tese com lastro histórico, mas não biológico, como argumenta a filósofa Elisabeth Badinter em Um amor conquistado: o mito do amor materno, de 1980. Ela lembra de como, das 21 mil crianças nascidas na Paris de 1780, só mil foram amamentadas pela mãe, outras mil, nutridas por uma ama de leite, e o restante, entregue a terceiros para ser criado longe da família, na insalubridade. As que sobrevivessem poderiam voltar já mais velhas, muitas vezes aleijadas e adoecidas.

A negligência sistemática com os menores, para Badinter, escancara a falácia do instinto materno — se existisse, ele jamais deixaria tamanho infanticídio acontecer. Na medida em que o capitalismo crescia, e a noção de família burguesa dilatava junto, a infância virou um bem valioso. E nunca que a sociedade patriarcal aceitaria que o homem sacrificasse sua vida pública para cuidar dos filhos. Aí, já sabe: sobrou para a mulher.

A psicanalista Vera Iaconelli recupera os escritos de Badinter em seu recém-lançado Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas da reprodução (Zahar), que rechaça a teoria de que a mãe é o sol soberano em torno do qual orbitam as futuras gerações. Não foi Deus nem a biologia que assim quiseram, e sim um pacto cultural que até hoje esgota mulheres como a mãe estafada narrada por Barbara.

Já há algum tempo, e com um empurrão das redes sociais, ganha espaço a reivindicação para que a responsabilidade materna seja parcelada entre o pai, o Estado e a sociedade como um todo. Há, no entanto, um movimento ambíguo aqui, revelador de como mesmo para as mulheres é difícil se desvencilhar desse ideal maternalista que lhes foi empurrado goela abaixo desde a primeira boneca-bebê que ganharam.

A valorização da mãe como principal fonte de cuidado dos filhos tem lastro histórico, mas não biológico

Em conversa sobre sua obra, Iaconelli me falou sobre a figura da “mãe cansada”, canal tanto para denunciar a sobrecarga de gênero quanto para condecorar a dedicação inesgotável à prole. “Ao dizer que sou uma mãe exausta, estou cumprindo meu papel de me exaurir nessa função. Na própria queixa há também um exibicionismo inconsciente. Uma mulher faz qualquer coisa pelos filhos, abre mão da carreira, de amores. Isso é puro suco de maternalismo.” É como se ela quisesse se despir desse fardo maternal mas, ante essa perspectiva, uma parte dela se sentisse nua de sentido.

A obra de Barbara me pegou como um grito ora de socorro, ora de liberdade. Vale a leitura para a família toda, inclusive para os muitos marmanjos que fingem que esse papo não é com eles. Didático, pois, não só para baixinhos.

Agora, a quem interessar possa, ofereço também a opinião do público-alvo: Violeta, três anos, informa que achou o livro bem legal, que a menina ilustrada por Laura Trochmann é muito bonita, e que a mamãe dela está cansada de ler Mamãe está cansada mil vezes ao dia. Sucesso de audiência.

Quem escreveu esse texto

Anna Virginia Balloussier

É jornalista e autora de O púlpito: fé, poder e o Brasil dos evangélicos (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.